A comunicação das baleias
Nos últimos cem anos, a atitude mundial em relação às baleias mudou bastante. Elas não são mais vistas como criaturas apavorantes como mostrado no filme "Moby Dick" e um esforço de proteção no mundo inteiro reduziu de forma considerável a caça às baleias. Através de extensa observação, os cientistas puderam concluir que as baleias são normalmente criaturas pacíficas, brincalhonas e que têm um alto nível de inteligência.
As corcundas macho são conhecidas pelas suas longas canções, que podem durar até 30 minutos e ser ouvidas a quilômetros de distância
Mas, as baleias ainda continuam tendo um certo mistério para nós. Muitas informações obtidas por pesquisadores levantaram algumas questões principalmente sobre a comunicação das baleias. As corcundas macho são as que mais emitem sons, produzindo uma complexa seqüência de lamentos, gritos agudos e sons ocos. Esses barulhos são algumas vezes combinados em uma música que dura até 30 minutos. O que é surpreendente sobre essas canções é que as baleias repetem literalmente esses mesmos sons várias vezes e, em uma região específica, cada macho emitirá a mesma canção fazendo pequenas mudanças de vez em quando para que evolua de uma forma diferente com o passar do tempo.
Esse comportamento parece estar relacionado com a reprodução. Durante o temporada de acasalamento, o macho começa a longa seqüência de sons, parando somente para se juntar com alguma fêmea que passa, nadando junto com ela e com o filhote. Eventualmente, macho e fêmea mergulham em direção ao fundo para acasalar. Parece lógico que a canção do macho atraia a fêmea, mas o som se propaga por muitos quilômetros atraindo também outros machos para a área. É muito estranho que o macho queira chamar a competição, a não ser que ele tente testar a sua força com os outros. Alguns pesquisadores acreditam que as canções são, na realidade, competições de força.
As baleias não produzem sons da mesma maneira que nós. As nossas cordas vocais não funcionariam tão bem debaixo d´água. As baleias produzem sons inalando ar através da cavidade nasal que fica em frente dos buracos respiratórios. Em baleias com dentes, os sistema de produção de sons envolve um arranjo complexo de tecidos de gordura. Nas baleias cachalotes e nos golfinhos, estas estruturas de som são tão grandes que elas possuem um evidente formato arredondado na testa. Os cientistas não entendem exatamente como funciona a produção de som das baleias, mas sabem que isso não se parece com nada conhecido no reino animal.
As baleias corcundas e a maioria das outras espécies produzem uma vasta gama de sons diariamente. Muitas espécies parecem formar laços estreitos entre si e os sons talvez sirvam para que as outras saibam onde estão e o que estão fazendo. A água é excelente para conduzir o som e os sons das baleias podem ser muito altos, então, elas podem se comunicar através de centenas ou talvez milhares de quilômetros. Os especialistas estão preocupados que a poluição sonora causada por plataformas petrolíferas de perfuração em alto mar e outras atividades no oceano estejam abafando esses sons e obstruindo o sistema de comunicação de longa distância das baleias.
Muitos pesquisadores acreditam que as baleias possuam uma capacidade de linguagem sofisticada. Elas têm cérebros enormes com características complexas que os biólogos associam a uma alta inteligência, mas a extensão da capacidade não está clara. Muitas espécies exibem comportamentos inteligentes tanto em cativeiro como na natureza. Elas aprendem tarefas complexas e demonstram habilidades avançadas na solução de problemas.
As baleias também têm memória excelente e isso está evidenciado nos seus padrões migratórios. Veremos na próxima seção como as baleias parecem lembrar de alguns pontos em particular ao longo da costa e através de todo o oceano, pois retornam para o mesmo local de alimentação ano após ano.
Hábitos migratórios
Um dos mais intrigantes aspectos do comportamento das baleias é o hábito migratório. No Oceano Pacífico, as baleias corcunda migram ao longo da costa americana até o Havaí retornando para as mesmas áreas ano após ano.
Elas tendem a migrar com a troca das estações tirando proveito das águas mais quentes em direção ao Equador durante os meses mais frios e da grande quantidade de alimento no Ártico durante os meses mais quentes. A maioria das espécies não migra regularmente em direção ao Equador, então devem existir grupos separados de cada espécie no hemisfério sul e no hemisfério norte.
Os cientistas estudam a migração das baleias de várias maneiras. Em muitas espécies as baleias têm marcas distintas na cauda que possibilitam aos pesquisadores identificar tipos específicos e segui-los aos locais por que passam para se ter uma idéia de onde vão e de quando estão migrando. Os pesquisadores também usam etiquetas de satélite, que são rádio transmissores que se comunicam com os satélites, para rastrear a localização de uma baleia.
Os pesquisadores colocam o transmissor nas costas da baleia usando arco e flecha normais. Como a gordura da baleia é grossa e o transmissor é pequeno, ela não é ferida.
Os transmissores têm mostrado que algumas espécies migram distâncias muito maiores que os cientistas anteriormente estimavam. Os pesquisadores rastrearam baleias corcunda que viajam centenas de quilômetros em poucas semanas indo de latitudes extremas ao norte para latitudes equatoriais e retornando. As baleias cachalote macho parecem andarilhos indo de oceano para oceano sem um padrão específico.
Na maioria das outras espécies, a migração está relacionada à reprodução. Geralmente as baleias fêmeas acasalam no outono ou inverno, quando estão em águas mais quentes e dão à luz na mesma região cerca de um ano mais tarde. No verão, entre o acasalamento e o nascimento, a fêmea tira proveito dos ricos recursos de alimento das águas mais frias do norte. Isso fornece a energia de que ela precisa para alimentar o filhote.
Filhote de orca alimentado pela mãe. Os filhotes bebem uma enorme quantidade de leite nos primeiros meses e engordam dúzias de quilos por dia.
Os filhotes podem nadar assim que nascem e sobem à superfície para respirar, mas precisam ser muito bem alimentados antes que possam se aventurar sozinhos.
Dependendo da espécie, os filhotes podem ficar junto com a mãe por um ano ou mais antes de se juntar às outras baleias mais jovens para brincar. Na maior parte deste período, o filhote subsiste somente do leite da mãe. As fêmeas têm duas tetas, normalmente escondidas dentro de fendas atrás do abdômen e perto da base da cauda.
O leite das baleias é excepcionalmente rico e fornece aos filhotes os nutrientes de que eles precisam. Um filhote de baleia azul bebe 189 litros de leite todos os dias e engorda 4,5kg a cada hora. Um filhote recém-nascido pode medir 7,60 metros da cabeça à cauda e pesa mais do que um elefante africano adulto.
Como o período de gestação é longo na maioria das espécies e o período de amamentação é muito exaustivo, as fêmeas têm filhotes somente em intervalos de dois a quatro anos. Essa baixa taxa de reprodução significa que qualquer caça em grande escala pode reduzir bastante a população das baleias.
Diferenças entre baleias e golfinhos
Em alguns casos os cientistas usam o termo baleia para descrever todos os animais na ordem dos Cetáceos. Isso inclui as grandes espécies, como as baleias corcunda e as baleias azuis e também as espécies menores como os golfinhos nariz de garrafa. Na maioria das vezes, as pessoas usam o termo "baleia" somente para descrever as espécies maiores e se referem às espécies menores (como golfinhos e botos) como cetáceos.
Uma mãe golfinho nariz de garrafa e o seu filhote. Os golfinhos que compõem a família Delphinidae dentro da ordem das baleias são vistos como os animais mais inteligentes da Terra.
Os golfinhos que compõem a família Delphinidae são baleias com dentes caracterizados pelo tamanho relativamente pequeno, cabeça protuberante e focinho bicudo. As orcas e as baleias piloto estão também incluídas nessa família, embora sejam muito maiores e os bicos menos pronunciados. Os botos, membros da família Phocaenidae, são pequenas baleias com dentes que têm uma cabeça redonda em vez de um bico pontudo.
Caça e conservação
No passado, o contato que os humanos tinham com as baleias era para a caça. Em algumas culturas, a carne da baleia era uma fonte importante de alimento desde os tempos pré-históricos. As baleias eram altamente visadas porque, assim como o mamute ou o bisão, um único animal rendia uma grande quantidade de carne. Mas por volta de 1700, quando a caça à baleia realmente decolou, o foco mudou da carne para o óleo derivado da gordura da baleia. Como essa gordura era o principal combustível para as lamparinas em muitas partes do mundo, o óleo de baleia foi um grande negócio nos séculos 18 e 19.
O deck de um baleeiro no começo do século 20. A caça à baleia era um grande negócio nos EUA, Rússia e muitos outros países.
Nesse período, a baleia filtradora era também muito valorizada. A queratina, conhecida como barba de baleia, combina força e flexibilidade. Essas qualidades fazem dela uma escolha ideal para uma variedade de produtos incluindo os espartilhos femininos, produtos de montaria e guarda-chuvas. Os dentes de baleia, entalhados com inscrições e decorações, eram também muito populares particularmente entre as classes mais altas.
O crescimento da caça nesse período teve um profundo impacto em muitas espécies. Como as baleias somente reproduzem uma vez por ano (ou, em muitas espécies, uma vez a cada dois ou três anos) elas foram devastadas pela caça excessiva. Uma baleia fêmea pode viver 50 anos ou mais e pode reproduzir dúzias de filhotes neste período, portanto, a perda de uma fêmea somente tem um efeito que atinge a população inteira. Além disso, o reduzido número de baleias afeta o equilíbrio ecológico do mar conduzindo a um excesso de krill em muitas áreas, o que pode conduzir a um rápido crescimento populacional de outras espécies que se alimentam destas criaturas.
Com a invenção do arpão e a crescente mobilidade dos barcos movidos a vapor, os baleeiros podiam mirar em espécies mais astutas que antes conseguiam escapar. Isso somado à crescente popularidade dos cosméticos à base de óleo de baleia conduziram a um período sem precedentes de caça no final do século 19 e começo do século 20. Por volta dos anos 40 estava claro que algumas espécies estavam quase extintas. Para assegurar o futuro da indústria, as principais nações que caçavam baleias se uniram em 1946 e assinaram a International Whaling Convention. Como parte desse acordo, as nações estabeleceram a International Whaling Commission, uma organização independente encarregada de pesquisar as populações de baleias e a da regulamentação da prática da caça à baleia.
Ao longo dos anos, a comissão estabeleceu regras mais rígidas para a caça porque a população das baleias continuava a diminuir. Em 1986, a comissão declarou a moratória mundial da caça à baleia porque ficou claro a espécie poderia entrar em extinção. Hoje, a comissão somente permite a caça em pequena escala por certas culturas aborígenes e para a pesquisa científica. Algumas nações como o Japão e a Noruega continuam a caçar afirmando que estão somente controlando as populações regionais.
Essa baleia franca foi chamada de "Calvin" pelos pesquisadores do Aquário da Nova Inglaterra. Eles tentaram liberá-la de um equipamento de pesca no começo de 2001. Como não conseguiram, instalaram um rastreador via satélite no equipamento para que pudessem monitorar o percurso dela. Em junho de 2001, após o dispositivo ter falhado, a baleia foi localizada e estava livre do equipamento.
Sob essas leis, muitas espécies de baleias saíram do risco de extinção, mas outras como a baleia franca ainda estão em perigo. De acordo com as organizações de preservação das baleias, a sobrevivência dessas espécies depende de regras ainda mais rígidas e mais campanhas de vigilância contra operações de caça ilegal. Se os esforços de conservação forem bem-sucedidos, as espécies ameaçadas terão uma boa chance de repovoar as suas populações e continuar a viver em paz nos oceanos por muitos anos.
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